Educadores dizem que adolescentes precisam de mais horas de sono.

  • by admin - qui, 04/16/2015 - 13:37

‘É natural que adolescente necessite de mais horas’, diz especialista em medicina do sono. E diretora de escola mudou adolescentes para o turno da tarde.
Dois professores adorados pelos alunos. E não é a toa. Em São Paulo, Rosângela Moura fez uma mudança radical na escola onde é diretora: trocou os turnos e botou os adolescentes para estudar à tarde. Agora, eles podem dormir um pouco mais. “E eu sempre pensei achei assim porque será que adolescente sempre estuda de manhã a contragosto, não rende, não aprende, e por que que ninguém faz nada?”, conta a diretora da escola.
Em Natal, Rio Grande do Norte, o professor John Fontenele ainda não conseguiu mudar os turnos do curso de Medicina da Universidade Federal. Em compensação, nas aulas dele o cochilo é liberado.
Em matéria de sono, John Fontenele e Rosângela Moura são mestres. Rosângela começou a perceber a maior necessidade de sono dos adolescentes logo que assumiu a direção de uma escola pública de São Paulo, em 2005. Muitos alunos do turno da manhã chegavam atrasados e não conseguiam assistir à primeira aula, às sete horas da manhã.“Então eles acabavam repetindo por falta. Aí eu resolvi trocar”, conta a diretora.
Rosângela resolveu botar os adolescentes para estudar à tarde e as crianças pequenas no turno da manhã. Fez um plebiscito para saber se a maioria estava de acordo e venceu por apenas seis votos.“A taxa de evasão no Ensino Médio foi assim caiu drasticamente, deu muito certo”, conta a diretora.Para dona Ivone e sua filha Gelly, a mudança caiu do céu. Todo dia era uma luta para tirar a filha da cama. “Gelly levanta, levanta tem que ir pra escola, não pode chegar atrasado, aquela pressão, e ela ‘Ah, mãe, deixa mais um pouquinho’, que mais um pouquinho, levanta logo”, diz dona Marivone Correia, diarista.“Eu tinha amigos que dormiam durante a aula inteira, ele praticamente dormia a aula inteira. E quando ele foi pra tarde ele era superativo, tanto que as professoras falavam assim: ‘menino você dormia de manhã, que que tá acontecendo com você agora à tarde?’. ‘Ah, é que eu durmo mais de manhã’”, conta Gelly Becker, auxiliar de vendas.
Adolescentes costumam dormir mais que a maioria
Os médicos dizem que não existe um tempo de sono ideal para cada pessoa. A maioria se satisfaz dormindo entre sete e oito horas por noite. Mas os adolescentes costumam dormir mais do que isso. E não é apenas porque ficam até tarde no computador ou vendo televisão. Quem esclarece é o professor John Fontenele, especialista em medicina do sono. “No adolescente você tem uma explosão da liberação dos hormônios, é onde você tá crescendo. Quando é que libera o hormônio do crescimento? Durante o sono. Então é natural que o adolescente necessite de mais horas de sono”, explica o professore de medicina.Basta acompanhar uma aula do professor John para perceber a necessidade de sono dos jovens. É um festival de cochilos e bocejos. E não é só o Juan, não, embora ele leve a fama de ser o maior dorminhoco.Globo Repórter: Por que essa compreensão com o sono?Professor John Fontenele: Porque o sono é algo fundamental para nós, seres humanos. Faz parte da nossa vida, então dormir faz bem. Eu gosto sempre de dizer, dormir pouco é bobagem. O pequeno cochilo que ele faz aqui na sala de aula vai ajudar um pouco ele nas próximas horas.Globo Repórter: E ele ronca, professor?Professor John Fontenele: Não, não, ele não ronca não, não atrapalha não, ele dorme tranquilo.
Até que ponto o ‘jet lag’ afeta os estudantes
Há 14 anos, quase todos os estudantes que entram para o curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, participam de um estudo sobre o sono. Eles são avaliados até o último ano, quando recebem o diploma. Passam por uma bateria de exames. Os especialistas querem saber se existe relação entre o desempenho nos estudos e o sono e até que ponto, o que eles chamam de ‘jet lag crônico’ afeta os estudantes. O termo ‘jet lag’ é usado para definir aquela alteração do sono que acontece quando as pessoas fazem viagens muito longas de avião, e atravessam vários fusos horários. Isso gera uma descompensação do sono. Dá vontade de dormir no horário de sempre e não na hora local.Um ponto em comum nos estudantes de medicina analisados na pesquisa é que todos dormem menos de seis horas por noite. E nos finais de semana dormem mais que 8 horas. Esse comportamento gera um ‘jet lag crônico’ de mais de duas horas que é muito tempo. E se engana quem pensa que é possível compensar ou repor o sono perdido durante a semana.“Se você tem uma perda grande de sono, tipo mais de uma hora, e na semana seguinte se você continua no mesmo esquema de trabalho, no mesmo esquema de estudo, você continua restringindo seu padrão de sono, então você não consegue compensar”, afirma o professor John.Estudante do primeiro ano de Medicina, Ruan Garcia de Medeiros é um dos voluntários da pesquisa sobre os efeitos da privação do sono. Ele faz os testes físicos, para checar as condições cardiorrespiratórias, e também passa pelos testes de memorização.Como os colegas de curso, Ruan dorme pouco. Ele passa o dia todo na universidade e ainda tem que estudar quando as aulas terminam. Sem contar o tempo que ele gasta para chegar em casa. Sobram poucas horas para dormir. E quando tem prova é pior.Corpo e mente sofrem as consequências de dormir pouco
Globo Repórter: Você dorme então uma média de três horas e meia?Ruan Garcia de Medeiros, estudante de medicina da UFRN: Três horas e meia, quatro horas. Isso quando está tendo prova, quando não tá tendo prova eu estudo assim, quando eu chego em casa e aí consigo dormir mais horas, no caso, cinco horas.A bateria de testes comprovou o que a ciência já desconfiava: dormir pouco faz mal à saúde. O corpo e a mente sofrem as consequências.“A gente tem alterações que a gente diz cardiovasculares, você tem um aumento da pressão arterial, você tem um aumento do batimento cardíaco, se o indivíduo tem alterações respiratórias como por exemplo se ele é asmático ele vai ter mais crises asmáticas”, explica o professor John.“Isso, no meu dia a dia mesmo, eu me sinto cansado, subir uma escada às vezes, me sinto ofegante”, conta Ruan.
Os efeitos se repetem na turma que madruga e dorme pouco.
Globo Repórter: O pessoal contou aqui que você sempre dorme na sala de aula, é verdade?Cecília Almeida Norato, estudante de medicina da UFRN: É normal ficar com sono, porque a carga horaria do curso é muito grande e também a gente tá no primeiro período, não se acostumou muito bem.
E durante todos os seis anos de curso é assim: pouco sono, muitas horas de estudo na madrugada, cansaço. Globo repórter: E vai dormir direito quando?Marcos Antônio Pinheiro, médico recém-formado: Isso aí, acho que só na aposentadoria.
O sacrifício poderia ser menor, com uma medida simples. O professor John defende a ideia de que todas as escolas devem começar as aulas do turno da manhã pelo menos uma hora mais tarde.
“Por que exigir que o aluno venha para a sala de aula às sete e ele tá sonolento, ele dorme?”, diz o professor John.
Enquanto as regras não mudam, o jeito é continuar lutando contra o sono. Para Ruan, o próximo dia é mais um dia de acordar cedo.Globo Repórter: Você vai chegar em casa que horas?Ruan: 21h45.Globo Repórter: E que horas o despertador toca para começar tudo de novo?Ruan: 5h da manhã.Globo Repórter: Então boa noite e um bom descanso para você.Ruan: Obrigado, eu vou embora porque já está tarde.
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